segunda-feira, 4 de maio de 2020

Talvez #46

Talvez escritores, poetas, esses loucos das artes, precisem de dias ruins. Talvez nesses dias o turbilhão que invade os olhos faça transbordar palavras, não só lágrimas. E talvez esses arrepios, que deixam alucinados seus corpos, sejam causados só pelo vento frio que encontrou uma fresta, e não pela frieza dos corações gélidos humanos. Talvez a voz rouca e os suspiros de quem chora do outro lado da linha, sejam só uma garganta que precisa pigarrear e um breve bocejo. E se for assim, lágrimas não são lágrimas. E se for assim, o ruído tem nome, e a interferência no telefone dá problema, dá medo ao desligar. E o silêncio mudo no quarto escuro, acompanha pés gelados e Marcelo Camelo que canta janta, até pegar no sono devagar. 

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