segunda-feira, 4 de maio de 2020

Estrelas cadentes e admiração maternal #48

Ontem, jantamos a luz de velas e a jazz dos anos 50, como sempre. Luz de velas? Não, o repertório é o de sempre. As velas vieram de mamãe tentando fazer algo novo durante a quarentena.
Taças borbulhando, um prato bem servido, divertimo-nos.
Ao sentarmos debaixo do céu estrelado, vi passar um risco de luz, rápido demais para ser qualquer coisa comum.
Entre muitas conversas, importantes demais para caberem em relatos tão breves, ela disse ter visto uma estrela correndo pelo ar.
Logo a vi fechar os olhos e balbuciar algo fora do meu entendimento, talvez propositalmente.
Espontaneamente, repetiu a cena quando, segundos depois, pareceu avistar outra rajada no céu.
Perguntei a ela sobre isto hoje. Primeiro mencionou que nunca havia visto uma estrela cadente antes. Perguntei a ela como ela se sentiu. Animada em seu dizer, contou-me que era como se estivesse num filme e que fez exatamente como viu sempre fazerem. Lembrei-me da cena.
Curiosa, continuei. Perguntei como foi ter visto a segunda estrela. 
A resposta que ela me deu foi incrível.
Foi um símbolo singelo da forma como o coração dela é cheio de ternura e amor. De como seus olhos não deixam de lado detalhes queridos, quando eles realmente os são.
"Foi tão espetacular quanto a primeira".

Quarentena #47

É era de pandemia
Nunca pensei viver isso, de verdade.
Estamos presos em casa, com alguma comida, e a companhia um do outro.
"Começou o Shabat, feliz quarentena! Opa, Feliz Sábado" é o que escuto de mamãe toda sexta ao por do sol.
Em tempos de crise temos sido carinho e colo, apoio um ao outro.
Tudo se abalou em relação aos negócios.
Fazemos inúmeras pesquisas por dia para ver a veracidade das informações.
Temos orado a Deus.
É era de pandemia.
De desinfetar as  mochilas que levamos sempre conosco.
De deitar no sofá e escrever sobre isso.

Talvez #46

Talvez escritores, poetas, esses loucos das artes, precisem de dias ruins. Talvez nesses dias o turbilhão que invade os olhos faça transbordar palavras, não só lágrimas. E talvez esses arrepios, que deixam alucinados seus corpos, sejam causados só pelo vento frio que encontrou uma fresta, e não pela frieza dos corações gélidos humanos. Talvez a voz rouca e os suspiros de quem chora do outro lado da linha, sejam só uma garganta que precisa pigarrear e um breve bocejo. E se for assim, lágrimas não são lágrimas. E se for assim, o ruído tem nome, e a interferência no telefone dá problema, dá medo ao desligar. E o silêncio mudo no quarto escuro, acompanha pés gelados e Marcelo Camelo que canta janta, até pegar no sono devagar. 

Sobre amor e distância #45

  Bom queridos, depois das (muitas) cobranças dos meus melhores amigos por um texto aqui resolvi me render e escrever o primeiro texto de 2020

 Confesso que meu coração não está muito feliz em escrever algo no meio desse caos todo, mas como diz meu amigo Marcio, boas histórias saem de situações ruins, então...

 Parei para pensar sobre o que escreveria, e me recordei de uma conversa que tive com meu avô em uma pequena viagem do fim de semana passado.
 Estávamos sentados na varanda da fazenda dele, conversando sobre os cavalos e como eles eram fortes para suportar todo o trabalho ao qual eram submetidos na dura rotina do campo. Meu avô então disse: "Pior era a 50 anos atrás, uma vez eu peguei um cavalo do meu pai e viajei nele 3 semanas, parando de fazenda em fazenda para ir visitar uma namorada." Imediatamente respondi com um leve sorriso e ar de surpresa: mas vovô, que namorada que morava longe, eu hein! Rimos juntos e não demorou para minha prima adentrar a conversa me questionando sobre meus amores distantes. Ele então nos disse que quando eles começaram a namorar, ela morava logo ali do lado, mas depois teve que se mudar com seus pais. Fiquei pensando então sobre o glamour dos relacionamentos antigos, ou o glamour que eu achava que existia. Mandar cartas, viajar semanas para apenas pegar na mão e trocar sorrisos vergonhosos. Esse amor havia se perdido, ou a culpa era da comunicação excessiva?
Não sei dizer, eu já namorei a distância e confesso que a saudade não me parecia tão bonita e sim angustiante, e com aquela leve sensação de: "Se eu for para o aeroporto agora, em duas horas posso estar com ele." Para ajudar esses meus questionamentos li um livro recentemente que fala sobre a fragilidade das relações humanas e de como tudo hoje em dia pode ser facilmente trocado. E então o que eu faria? A onde eu iria encontrar meu amor do século passado se ele não existe mais?

Na viagem de volta falei sobre isso com meu pai, esperando aquele leve choque de realidade que os pais dão na gente sabe? Só para nos lembrar de que não vivemos em um mundo tão cor-de-rosa. Mas o que escutei do meu pai foi uma frase interessante: "Você encontra o amor que oferece ao outro, filha se você realmente acredita que ainda existam relacionamentos como os de antigamente, certamente encontrará um para chamar de seu." A conversa com meu pai rendeu ainda mais um pouco, enquanto eu olhava pelo retrovisor do carro o sol se pondo a oeste. Ele me disse que eu poderia sonhar com as cartas e romances de antigamente mas que dificilmente eu abriria mão da tecnologia de hoje se eu pudesse escolher.
Já estava quase abrindo a boca para questioná-lo e dizer que ele não conhecia a filha que tinha, que era apaixonada por romances do século passado e que sonharia viver algo do tipo, quando antes de falar pensei: Se apaixonar a distância hoje, seria no mínimo parecido com 50 anos atrás? Qual dos dois eu escolheria?
Pensei nas comodidades de mandar mensagens instantâneas, de fazer ligações quando quisesse, e de trocar fotos com a pessoa em questão. De conversar sobre notícias interessantes, ou sobre qualquer futilidade em alguma tarde de domingo. 
 Realmente, eu não trocaria as facilidades que posso dar ao meu coração hoje pelo charme de meio século atrás. As cartas de antigamente, foram substituídas por fotos cheias de saudade e significado. As viagens de dias a cavalo, por uma mensagem de: "Já fiz o check-in e em breve estaremos juntos" ou "Só faltam mais 50km". A tecnologia realmente mudou, às vezes não sei se para melhor ou pior mas mudou. Encurtou as distâncias e fez o mundo parecer pequenininho novamente, tal qual no século XVII. Essa tecnologia nos aproxima mais, aplaca os nossos pobres corações que na maioria das vezes tem tendência a se envolver com pessoas que nem sempre estão fisicamente "aqui". Minha música favorita do Cazuza tem uma frase que desde que ouvi a 8 anos atrás nunca sai da minha mente. "Olha pra mim, me dê a mão depois um beijo, em homenagem a toda distância e desejo." Talvez o charme dos amores "de longe" seja esse, o aumento do desejo proporcional ao aumento da saudade. Então nessa época de distanciamento obrigatório se lembrem das dificuldades de comunicação que tínhamos antigamente, e aproveitem as novas facilidades que podemos desfrutar hoje. Faça planos de viagens para daqui a alguns meses, conheça novas pessoas e se apaixone por elas ou se apaixone novamente por antigos conhecidos e se nada disso for viável, bom, os romances ingleses sempre estão na estante para serem revividos. Dê uma chance para o amor mostrar o quão adaptado a distância ele está haha, e o mais importante se lembre que você encontra o amor que oferece ao outro.

no limite das emoções: um relato sobre o transtorno bipolar #55

existem dias e dias dias de calmaria onde parece que estou em um veleiro navegando em águas calmas, sinto o vento que impulsiona a  minha em...