terça-feira, 7 de março de 2023

é março, feliz ano novo! #52

Feliz 2023! 

Desejar feliz ano novo no terceiro mês deste ano em qualquer lugar do mundo seria estranho. Menos aqui. No Brasil. Onde o ano realmente começa após o carnaval. Então. Feliz ano novo!

Decidi como primeiro texto de 2023 relatar um dia normal da minha nova rotina como pseudo paulista. Quase todos os dias são iguais. No começo achava isso tedioso, hoje já vejo como uma benção em meio ao caos que é essa cidade. Bom, vamos ao relato:


Caótico.

Assim eu descreveria meu dia de hoje que feliz ou infelizmente ainda não acabou. 

O comecei bem, já fazia algumas noites que não dormia direito, mas após ir pra cama ontem em meio a lágrimas e orações, Jesus me deu uma ótima noite de sono. 

06:40, toca o primeiro despertador, acordo meio sonolenta… só mais uma hora. 

07:40 toca o segundo e último despertador, ou eu me levantava pra ir à academia, ou me rendia a manhã na cama. pensando bem estou merecendo uma manhã de preguiça, esses últimos dias foram tão absurdamente corridos, se tem alguém que merece uma manhã acordando às onze, essa pessoa sou eu. o pensamento dura uns dez minutos, me lembro da leitura bíblica que havia feito noite passada: provérbios 6, falava sobre preguiça. Deus nos ordenava a não ser preguiçosos.

pensei: eu posso desobedecer todo mundo, mas ainda não tenho peito para questionar as ordens da minha divindade. Levanto. Com raiva. tomo o pré treino tal qual aqueles atletas de fisiculturismo, só jogo na boca e engulo certa quantidade mínima de água por cima. já que tem que ir, então vamos né. Chego na academia, meus dois personais (sim, eu tenho dois) estão lá. um me aguardando pro treino o outro realizando o treino pessoal dele. tento continuar com raiva pra treinar mais rápido e ir embora logo. Não dá. os meninos são incríveis, Caio me deu todo suporte necessário para fazer um treino fod@ e Nicolas contribuiu com piadas e os assuntos mais aleatórios do mundo, enquanto eu fazia supino ele imitava o Naldo do meu lado claramente me fazendo errar o exercício e levar bronca do Caio que também não conseguia ficar sem rir. Saio da academia, volto pra casa. Ligo de chamada de vídeo pro meu pai: oi pai, vou fazer meu almoço agora, estou com saudades! papai me faz companhia enquanto faço meus ovos mexidos com queijo, falamos sobre finanças e sobre a empresa. Deus tem sido generoso conosco. Desligo a chamada, hora de ir pra Acadepol. Coloco um macacão de cetim preto e um all star, hoje não tinha aula de campo e eu com certeza seria a delegada mais descolada daquele lugar com meu all star rosa. Tarde toda de aula de penal, será que os professores se lembram que somos todos advogados aqui? preguiça. Vou pensar na minha viagem de “férias”. reviso as hospedagens, e se ao invés do hostel eu ficasse em um hotel 5 estrelas em Jurerê? eu mereço não é? são só 4 dias… mas Jurerê é tão longe de tudo… ok, 2 dias no hostel, 2 no hotel 5 estrelas que custa mais que o preço da viagem toda, mas vai valer a pena, tem hidro! eba. Penso no Rodrigo, queria que ele realmente voltasse em floripa comigo, mas já que percebo que não vai rolar, me lembro que ele esta se programando pra vir em sp, e se eu fosse um dia no rio? e se ele não quiser me ver no rio? eu morro de medo daquele lugar, solução simples: pegue outro hotel 5 estrelas em frente ao mar, qualquer coisa é só sofrer tomando uma caipirinha no terraço com piscina. (E voltar chorando a ponte aérea toda, quanto drama). Fecho o hotel no rio, um dia, ok. Aviso Rodrigo: vou ficar um dia no rio! Ele parece surpreso/animado. Deixo pra comprar os voos mais perto da data afinal, o hotel tem 50% de reembolso (do valor exorbitante) já os voos não. Tenho que ser menos emocionada. Acaba a aula na Acadepol. Lembro que queria passar em uma loja militar para comprar um coldre novo com lugar para duas armas, pego o endereço com um colega de turma, entro no carro e partiu se aventurar com waze no trânsito paulista. Acho a loja, porém, estacionamento? nada. só no fim da rua bem lá em cima. uma loooonga rua. Tudo bem, estou de all star o que tem andar um pouco. Entro na loja, vidro fumê, ar condicionado, tudo absolutamente fechado. Dois rapazes na recepção: “oi, eu gostaria de ver um coldre pra duas pistolas.” eles sorriem: “claro. é presente pro seu namorado ou marido?” faço uma mini expressão de raiva rapidamente, mas que eles percebem: “é pra mim”, apresento a carteirinha de aluna da Acadepol, por que o distintivo demora tanto em governo de sp? Já começam a me chamar de doutora, a bajulação de sempre. Sabe o que também é de sempre? as frases: “você não tem cara de delegada! parece tão novinha! sua família deve ter muito orgulho.” Sim não tenho cara, quando eu estiver com o distintivo pendurado acho que terei mais, sim sou novinha, a mais nova da turma e uma das mais novas a ingressar na história da polícia civil de sp, sim minha família tem muito orgulho. Próxima. Acho o coldre, preço salgado, logo penso: “metade da diária no hotel de Jurerê” mas ok eu também mereço. a loja também era de armas, dou uma olhadinha. outra glock não seria má ideia, mas a necessidade no momento é 0, e a vontade de gastar também. deixo pra próxima. Me despeço dos rapazes. Saio da loja, um temporal. Como assim? fez sol a tarde toda! Ok, da pra ir correndo até o carro! Mas eu não queria molhar o coldre, nem o all star, mas tudo bem… depois seca. Corro uns 50 metros, impossível. Vou estragar meu celular, essas garantias da Apple não são confiáveis. Paro embaixo de um toldo onde está um senhor de uns 60 anos também aguardando a chuva passar. “que temporal né?” assim ele tenta quebrar o silêncio clichê e constrangedor, eu respondo: “sim, isso aqui é uma loucura uma hora sol outra hora chuva” imediatamente escuto o que ouço pelo menos três vezes ao dia: “você não é daqui né?” “não sou de Uberlândia, Minas” “ah sim, eu vim de Santo Amaro trazer um mingau pra minha tia” eu respondo com certa indignação, afinal eu não entendo muito ainda do mapa paulistano, mas Mi mora em Santo Amaro e eu sei que é longe. respondo: “Santo Amaro?” ele diz:”sim, minha tia tem 101 anos, é sozinha, mas a comida predileta dela é mingau, minha esposa fez e decidi pegar o metrô e trazer pra ela, sabe-se lá Deus quantos anos mais ainda a restam pra ela comer mingau né”, dei uma boa risada. lembrei da minha sobrinha, da última vez que a vi e a fiz dormir cantando La Vie En Rose (única função da minha fluência em francês segundo meu irmão). como estou com saudades dela. será que um dia ela atravessará a cidade pra me levar mingau? dou outra risada sozinha. pergunto: “o senhor vai pegar o metrô de volta? a estação está a uns 5 quarteirões daqui” ele responde: “sim, vou esperar a chuva, qualquer coisa vou molhando mesmo”. não oferecer carona a estranhos. eu aprendi isso em Uberlândia antes de ser se quer advogada, quando tirei carteira de habilitação. mas que mal um senhor de 60 anos com um guarda chuva pode me fazer? ele não viu mas estou armada, o risco maior seria pra ele, abro a boca e digo: “quer uma carona até a estação, meu carro é aquele ali, eu deixo o senhor lá” ele sorri e diz: “aceito sim, você é muito gentil, deve ser porque é mineira”. é os paulistas não são conhecidos por sua gentileza no geral. corro até o carro, o celular inevitavelmente leva uns pingos, ok, nada demais. volto e paro para ele entrar: “uau uma Mercedes, nunca entrei em uma, só nos ônibus mesmo” dou outra risada e logo em seguida sou interrogada: “sem querer ser grosso (frase que geralmente antecede alguma grosseria) moça, você trabalha com o que?” lembro da minha primeira aula na Acadepol e de um delegado experiente dizer: “só conte sobre sua profissão a quem realmente interessar” então respondo rapidamente: “sou advogada” ele retruca: ”ah sim, São Paulo precisa de muitos mesmo, meu neto quer fazer faculdade de advocacia.” respondo: ”diga a ele que faça, é uma área incrível” (imediatamente peço perdão a Deus pelo pecado da mentira, mas quem sou eu pra destruir sonhos alheios) chegamos no metrô, ele agradece, pega a minha mão e me diz para fazer meu caminho para casa com Deus. eu respondo: “amém” ele sai. volto para o waze e o caminho de casa. minha cabeça está explodindo de dor, mas não vou parar em nenhuma farmácia, remédio só em casa e depois de um bom banho quente. 

Chego em casa. 

Nina me olha desinteressada no sofá, hoje não trouxe sachê pra ela, sinto que cada dia ela sente mais falta de Uberlândia. eu também nina, eu também.

Deito na cama de toalha após tomar o remédio, 5 minutos de descanso até ir pro banho pra depois ler e dormir.

Que dia.

Resolvo escrever sobre ele.

E aqui acabo o relato de um dia comum, aleatório, mas que mereceu ser registrado.

no limite das emoções: um relato sobre o transtorno bipolar #55

existem dias e dias dias de calmaria onde parece que estou em um veleiro navegando em águas calmas, sinto o vento que impulsiona a  minha em...