"Preciso escrever sobre isso", esse era o pensamento que ficava se repetindo em minha cabeça enquanto escutava uma história dessas que a gente só lê sobre.
Primeiro vou explicar o contexto, estava no meu trabalho e um senhor de uns 70 e poucos anos foi visitar a minha chefe, ele lhe contava sobre sua esposa que pelo que entendi estava internada em uma UTI em estado grave, comecei a prestar atenção na história. O senhor (o qual depois descobri que se chamava José) tirou sua carteira do bolso, pegou uma foto 3x4 dessas preta e branco, mostrou para minha chefe e disse: "olha como ela era quando nos conhecemos a 50 anos atrás, ela tinha 18 anos e eu 25, não vou falar que ela era linda porque linda ela ainda é, tiramos essa foto escondido no dia do nosso quase casamento." Quase casamento? Nesse momento parei de escrever os relatórios que estava escrevendo e dediquei 100% de atenção a conversa, o senhor José percebendo meu interesse nada disfarçado olhou para mim e continuou falando: "Sabe mocinha, eu vim de belo horizonte estudar direito na ufu, e a conheci, ela era filha do dono da empresa onde arrumei meu primeiro emprego nessa cidade" nesse momento minha chefe falou: "eu nem sabia que uberlândia era tão antigo" ele respondeu "é sim, quantos anos tá fazendo dia 31 mesmo?" e eu respondi imediatamente com um sorriso de orelha a orelha e como boa uberlandense orgulhosa que sou "131 anos", o senhor José continuou a história quando eu lhe contei que também fazia direto na mesma faculdade: "pois é, o pai dela não aprovava nossa relação, queria que ela se casasse com um doutor (nota minha: acho que ele quis dizer médico nesse momento) e eu não tinha nada, estudava direito porque não pagava nada na ufu e os gastos de moradia conseguia pagar plantando eucalipto para a empresa do pai dela, mas me apaixonei, era desses rapazes bobos, nunca tinha namorado na vida, ela era diferente, apesar da família ser bem de situação e ela ter só 16 quando a conheci, ela já trabalhava, era muito humilde e conversadeira e olha essa foto aqui (me mostrou a tal foto 3x4) era muito linda. Começamos a namorar, meu sogro não proibiu o namoro porque achou que não daria em nada, mas nós já falavamos de casamento, quando fizemos 1 ano de namoro em 1968 meu sogro começou a se incomodar, me despediu do emprego, vivia mandando gente me seguir querendo me passar medo, ele era um desses homens do mato grosso bem metidos a bravos sabe? (nessa hora eu já estava com a mão no queixo sobre a mesa escutando sem piscar) mas eu não fiquei com medo, arrumei outro emprego, já estava no meu segundo ano de direito, aluguei uma casa onde hoje é o bairro fundinho e comprei todos os movéis novos, decidimos que iríamos nos casar, ela não tinha medo do pai mas precisava dos documentos dela (os quais ele escondia trancado em uma pasta), mas um dia ela conseguiu pegar os documentos escondida, me ligou e marcamos de nos encontrar na praça tubal vilela, na época o cartório ficava pouco ali pra cima, eu levei os meus documentos e fomos para lá, eu no meu horário de almoço, ela com uma roupa tão simples para não dar pistas para a família, quando chegamos no cartório, paguei o casamento e entramos na sala do juíz, eu virei para ela e disse: Carmen, eu queria que as coisas não fossem assim escondidas, nós nos amamos, seus pais vão te odiar o resto da vida, olhei para o juíz e disse: doutor voltamos amanhã, tem como? O juíz disse que sim mas que depois de amanhã o documento com o valor pago do casamento já não teria validade, voltei para o trabalho e naquela noite fui a casa dela e disse ao pai que iria me casar com a filha dele ele querendo ou não, que a amava e que sabia que ela só tinha 18 anos e eu 25, que não era doutor mas que iria dar do bom e do melhor para ela nas minhas condições, meu sogro fez cara feia e disse: não faço gosto, mas se ela quer, já tem 18 anos. No outro dia nos casamos, meus sogros foram, minha sogra estava feliz meu sogro com cara de poucos amigos, e assim construímos nossa família, hoje são 2 filhos, 3 netos e 2 bisnetos, meu sogro e eu viramos melhores amigos com o passar dos anos, e eu ajudei a cuidar dele nos últimos anos da sua vida." Senhor José então se voltou para minha chefe para acabar de contar sobre o atual estado de saúde da esposa e eu para meu teclado, maravilhada com a história tão curta mas tão interessante, ela serviu para me inspirar de alguma forma.
Todos que me conhecem sabem que eu amo e sou completamente apaixonada por Uberlândia, que um dos meus sonhos é publicar um livro sobre as histórias que já ouvi das pessoas dessa cidade e um dia quando realizar esse sonho, a história do "seu" José estara lá, vi ele algumas semanas atrás e perguntei se poderia escrever algo sobre sua história, ele disse que sim, mas que era pra contar tudo direitinho como se eu estivesse escrevendo algo para um processo, eu disse que o faria. Senhor José, contei em poquissímas palavras sua história de casamento com a Dona Carmen que ainda se encontra na UTI, um dia irei escreve-lá em um livro como te prometi, continuo orando pela saúde dela e em breve vocês estarão em casa com os bisnetos fazendo bagunça.
PS: As vezes achamos que as maiores histórias de amor só acontecem em Paris ou em Verona (não é romeu e julieta?), mas as reais, as que estão pertinho de nós, são as mais incriveís de se conhecer.